

A missão de Eduardo Bassani, proprietário das equipes RC3 Bassani e Bassani Racing, que concorrem na Stock Car e na Fórmula 3, respectivamente, não é nada fácil. Ele precisa motivar equipes que trabalham nos bastidores dos boxes para os pilotos brilharem. E tira essa tarefa de letra. Como dono do negócio, é requerido não apenas no business da companhia, mas em todos os processos administrativos, que vão do marketing à elaboração de contratos, passando pela prospecção de patrocínios.
Ele joga em todas as posições. Com muita disposição. A performance de suas equipes comprovam: desde 2002, quando surgiu, elas já arremataram diversos títulos na Fórmula Renault (hoje inexistente), na Fórmula 3, além de resultados expressivos na Stock Car, categoria que mais cresce atualmente no Brasil.
Engenheiro mecânico por formação, com pós-graduação em automação automobilística, Bassani cobra escanteio, cabeceia, mas não deixa de lado a função na qual é titular absoluto: engenheiro de pista. Corredor de kart na adolescência, ele abandonou a modalidade quando percebeu que não poderia continuar profissionalmente. Tratou de estudar, acumulou expe-riência na Inglaterra – considerada por muitos a Meca do automobilismo –, integrou as principais equipes do setor automobilístico até conquistar a sua própria.
De engenharia automobilística, portanto, ele entende. Os desafios, agora, são outros. É saber administrar uma empresa, acompanhar o dinamismo no mercado em que está inserido, ser responsável por pessoas, ampliar sua competitividade na Fórmula 3 e se consolidar na Stock Car, categoria que passa por um grande processo de profissionalização, que movimentou, no ano passado, cerca de R$ 260 milhões e deve, nos próximos três, triplicar esse montante. Confira a entrevista que Bassani concedeu à CanalRh em Revista.
CanalRh: Como o senhor lida com o acúmulo de funções?
Eduardo Bassani: De maneira tranqüila. Hoje, como proprietário, diretor técnico e enge-nheiro chefe da Bassani Racing e da RC3 Bassani, preciso administrar todo o negócio, já que nossa equipe de escritório é pequena. Faço marketing, captação de recursos. Sou o motivador do pessoal. Gerencio o time e isso, para mim, não é tão natural, porque eu sempre fui funcionário. Agora estou do outro lado.
CanalRh: As tarefas operacionais, de engenharia, então, ficaram de lado?
Bassani: Não. E faço questão de que seja assim. É o que amo fazer. Mantenho a função que eu tinha antes de ser proprietário, que é ser o engenheiro de pista. Atuo em toda a parte operacional dos carros e coordeno a equipe de engenheiros. Nesse sentido, nada mudou.
CanalRh: Como foi essa transição ao longo da qual o senhor passou de comandado a líder?
Bassani: Essa transição só foi possível porque quando eu era funcionário sempre tive inquietação no sentido de aprender sobre as outras áreas. Nessa época, comecei a me interessar pela área de marketing, a formatar layout de patrocínio. Hoje, consigo formatar uma proposta de marketing, por exemplo. Se eu fosse pagar um advogado toda hora que eu precisasse fazer um contrato não sobreviveria. Além de toda essa parte administrativa, tive que aprender a lidar com essa história de ser o líder, empolgar o pessoal.
CanalRh: Nessa fase de transformações, o senhor também passou de funcionário a proprie-tário. Que tal a experiência?
Bassani: Tem sido muito rica, porque atuo em diversas áreas, sem deixar a minha de lado. Acredito piamente que o segredo para qualquer empresário no Brasil seja esse: ser polivalente.
CanalRh: Essa postura não incorre numa centralização exagerada das tarefas?
Bassani: É preciso tomar cuidado com isso. Não somos super-homens. Ser polivalente é importante, mas saber delegar é fundamental.
CanalRh: Como é a responsabilidade de pertencer a um mercado que movimenta altos valo-res e vem crescendo exponencialmente?
Bassani: Eu costumo dizer que o meu business é a uma concessionária de luxo, com um time de futebol – porque você mexe com paixão – misturado também com uma empresa de eventos, que acaba montado um box organizado com a marca dos patrocinadores. A responsabilidade é grande, muito também em função dos relacionamentos.
CanalRh: A que tipos de relacionamentos o senhor se refere?
Bassani: A todos eles. Na Fómula 3, o normal é os pilotos virem do Kart com um orçamento da família combinado com o de algumas empresas e “alugarem” uma vaga na minha equipe. Eu sou o proprietário dos carros, então eu tenho oficina, todas as ferramentas, os profissionais, uma equipe. Na Stock Car, eu também sou proprietário dos carros, mas, como essa categoria vem crescendo muito e se profissionalizando, os pilotos têm patrocinadores e também investem nos carros. Assim, as responsabilidades são mais compartilhadas.
CanalRh: Então na Fórmula 3 o piloto é seu cliente, e na Stock Car, um parceiro?
Bassani: Sim. E esses formatos fazem parte de uma escala evolutiva, cujo degrau máximo é quando a equipe consegue um patrocinador forte que arque com todos os custos, inclusive os referentes aos salários dos pilotos. Isso já vem acontecendo na Stock Car.
CanalRh: A televisão tem forte influência nessa mudança, certo?
Bassani: Sem dúvida. A maior exposição que a TV Globo proporciona chama a atenção de pa-trocinadores, que passam a enxergar a Stock Car como uma grande possibilidade. A ausência da televisão na Fórmula 3 resulta num menor crescimento da categoria e comprova essa tese.
CanalRh: Internamente, como motivar uma equipe que trabalha nos bastidores para um cliente ou parceiro – no caso os pilotos – brilhar e receber todos os holofotes?
Bassani: Poderia ser complicado. Mas não é tanto porque eu lido com pessoas apaixo-nadas, um requisito básico para quem quer trabalhar comigo. Eu reconheço meus funcionários. Além disso, os próprios resultados são um reconhecimento. Aqui não trabalho com o eu, mas com o nós. Não levo na mão de ferro. É tudo compartilhado: dúvidas, decisões, conquistas. Essa característica vem, talvez, do fato de eu já ter sido funcionário. E, claro, reconhecemos também financeiramente. Costumo brincar que funcionamos como uma cooperativa de pessoas que amam carros de corrida.
CanalRh: Observando sua ação nos boxes, o senhor me pareceu uma pessoa vibrante, empolgada. Essa postura faz parte da sua estratégia de motivação também?
Bassani: Sim. Minha missão é fundamental. Se eu chego cabisbaixo, jogo o moral de todos lá para baixo. Isso não pode acontecer.
CanalRh: Estrategicamente, como se dá a escolha do piloto? É quem paga mais ou o melhor tecnicamente e que, por isso, trará maior projeção e prestígio para a equipe?
Bassani: O melhor dos mundos é o equilíbrio entre os dois. Já tive piloto muito bom que não tem condição financeira alguma. E vice-versa. Cada caso é um caso e precisa ser estudado com cuidado. O que não pode é pensar apenas em faturar neste ano e não analisar os próxi-mos. Em automobilismo, planejar no longo prazo é fundamental para a sobrevivência.
CanalRh: Se pensar em longo prazo é tão importante no mundo do automobilismo, por que não existem projetos sólidos voltados para a formação de pilotos?
Bassani: Esse é um grande problema mesmo e fonte de muita preocupação. Fico chateado com isso, porque não existem esses projeto. No Brasil falta trabalho de base. Todo mundo quer o piloto pronto. Hoje já vejo cair o nível das novas gerações. Se a realidade continuar assim, num futuro próximo não teremos pilotos competitivos em nível mundial.
CanalRh: Num segmento de alta tecnologia e performance, qual a relação que o senhor faz entre máquina e piloto?
Bassani: Costumo dizer que a responsabilidade é dos dois, por igual. A informação que o piloto me passa é fundamental para o desenvolvimento do carro. E uma máquina boa aumenta a competitividade. O homem e a tecnologia se complementam. E é assim que deve ser.
“Aqui não trabalho com o eu, mas com o nós. É tudo compartilhado: dúvidas, decisões, conquistas.”















